201 vs 304 – Composição, Tratamento Térmico, Propriedades e Aplicações

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Introdução

Os aços inoxidáveis austeníticos 201 e 304 estão entre os graus mais comumente considerados quando projetistas, equipes de compras e fabricantes equilibram resistência à corrosão, conformabilidade, desempenho mecânico e custo. Os contextos típicos de decisão incluem: minimizar o custo do material para ambientes decorativos ou pouco corrosivos versus garantir resistência à corrosão a longo prazo em aplicações alimentícias, químicas ou externas; e escolher entre conformação a frio mais fácil ou melhor tenacidade e desempenho de soldagem a longo prazo.

A principal distinção prática é que o Tipo 201 utiliza intencionalmente menor teor de níquel e maiores adições de manganês/nitrogênio como estratégia de substituição motivada por custo, enquanto o Tipo 304 mantém níveis mais elevados de níquel e cromo para maximizar a estabilidade da austenita e a resistência à corrosão. Devido a essa estratégia de substituição, 201 e 304 são frequentemente comparados sempre que custo, resistência à corrosão e conformabilidade são parâmetros em jogo na seleção do componente.

1. Normas e Designações

  • 304: amplamente padronizado como ASTM/ASME A240 (chapa, folha), A312 (tubo), e equivalentes em outros sistemas; número europeu EN frequentemente citado como 1.4301 (frequentemente X5CrNi18-10); designação JIS SUS304; equivalentes chineses GB (comumente listados sob ligas Cr-Ni). Classificação: aço inoxidável austenítico.
  • 201: comumente referenciado pelo UNS S20100 e em algumas especificações de produto como ASTM/AISI Tipo 201 ou SUS201 na JIS; normas regionais e designações de fornecedores variam. Classificação: aço inoxidável austenítico (níquel-reduzido, estabilizado com manganês e nitrogênio).

Nota: Ambos são graus inoxidáveis (austeníticos) e não aços carbono, liga, ferramenta ou HSLA.

2. Composição Química e Estratégia de Liga

A tabela abaixo apresenta faixas típicas de composição (wt%) dos aços inoxidáveis comerciais Tipo 201 e Tipo 304. Os valores indicam faixas representativas da indústria; normas específicas ou certificados de laminador devem ser consultados para tolerâncias rigorosas.

Elemento Tipo 201 (faixa típica, wt%) Tipo 304 (faixa típica, wt%)
C ≤ 0,15 ≤ 0,08
Mn 5,5 – 7,5 ≤ 2,0
Si ≤ 1,0 ≤ 1,0
P ≤ 0,06 ≤ 0,045
S ≤ 0,03 ≤ 0,03
Cr 16,0 – 18,0 18,0 – 20,0
Ni 3,5 – 5,5 8,0 – 10,5
Mo — (normalmente 0) — (normalmente 0 para 304; Mo presente no 316)
N 0,1 – 0,25 (usado como estabilizador da austenita) ≤ 0,10
Outros (V, Nb, Ti, B) Geralmente não adicionados intencionalmente Geralmente não adicionados intencionalmente

Efeitos da liga (resumo): - O Cromo (Cr) forma o filme passivo de óxido que confere aos aços inoxidáveis sua resistência à corrosão. - O Níquel (Ni) estabiliza a estrutura cúbica de face centrada (austenítica), melhorando ductilidade, tenacidade e resistência à sensibilização; maior Ni também melhora a tenacidade em baixas temperaturas. - O Manganês (Mn) e o Nitrogênio (N) são usados no 201 para substituir parte do níquel, estabilizando a austenita, porém alterando o comportamento mecânico e desempenho contra corrosão. - O Carbono (C) afeta resistência e suscetibilidade à precipitação de carbonetos (sensibilização) durante exposição térmica; variantes com baixo C (ex.: 304L) mitigam corrosão intergranular após soldagem.

3. Microestrutura e Resposta ao Tratamento Térmico

  • Microestrutura (como produzidos, recozidos): Tanto 201 quanto 304 são nominalmente totalmente austeníticos à temperatura ambiente quando recozidos. A estabilidade da austenita no 201 é mantida por maior teor de Mn + N ao invés de Ni. Como resultado, 201 é mais propenso à formação de martensita induzida por deformação durante trabalho a frio intenso do que 304 em algumas condições, pois sua austenita pode ser menos estável sob tensão.
  • Tratamento térmico: Nem 201 nem 304 são endurecíveis por tratamento térmico convencional de têmpera e revenimento (são graus austeníticos não endurecíveis por tratamento térmico). O recozimento típico é recozimento em solução a aproximadamente 1010–1120 °C seguido de resfriamento rápido (têmpera em água ou resfriamento rápido a ar) para dissolver carbonetos e restaurar resistência à corrosão e ductilidade.
  • Trabalho a frio e processamento termomecânico: A resistência em ambos os graus é predominantemente aumentada pelo trabalho a frio. O trabalho a frio elevado aumenta limite de escoamento e resistência à tração e reduz alongamento; o 201 normalmente endurece por trabalho mais rapidamente.
  • Sensibilização: Ambos os graus podem sofrer precipitação de carbonetos de cromo se expostos na faixa de temperatura de sensibilização (aproximadamente 500–800 °C) por tempos prolongados, levando à corrosão intergranular. Variantes de baixo carbono (ex.: 304L) ou graus estabilizados (com adições de Ti ou Nb) são usados quando soldagem ou exposição a alta temperatura for uma preocupação.

4. Propriedades Mecânicas

A tabela compara o comportamento mecânico qualitativamente (típico em produtos recozidos). Valores exatos dependem da forma do produto (chapa, placa, tubo), condição e dados do fornecedor.

Propriedade Tipo 201 Tipo 304
Resistência à tração Ligeiramente maior (devido a Mn/N e trabalho a frio comum) Moderada (bom equilíbrio entre resistência e ductilidade)
Limite de escoamento Maior (tende a apresentar limite de escoamento mais alto em condições comparáveis) Menor (maior ductilidade ao escoamento)
Alongamento (ductilidade) Menor (reduzido em relação ao 304 no estado recozido) Maior (melhor ductilidade e conformabilidade)
Tenacidade ao impacto Boa à temperatura ambiente; inferior ao 304 em alguns tratamentos Excelente tenacidade em entalhe à temperatura ambiente e baixas temperaturas
Dureza Ligeiramente maior (e aumenta mais com trabalho a frio) Menor em condição recozida; aumenta com trabalho a frio

Interpretação: O Tipo 201 frequentemente apresenta maior resistência e dureza no estado recebido para a mesma rota de processamento, porém às custas da ductilidade e por vezes tenacidade. O Tipo 304 oferece melhor combinação ductilidade–tenacidade, o que beneficia conformação e confiabilidade em serviço em muitas aplicações corrosivas e estruturais.

5. Soldabilidade

A soldabilidade de ambos os graus é geralmente boa quando comparada a aços carbono, pois aços inoxidáveis austeníticos não endurecem por transformação martensítica no resfriamento. Considerações:

  • Equivalentes de carbono e risco de trinca de soldagem podem ser estimados com fórmulas empíricas aceitas. Dois índices comumente usados são:
  • $$CE_{IIW} = C + \frac{Mn}{6} + \frac{Cr+Mo+V}{5} + \frac{Ni+Cu}{15}$$
  • $$P_{cm} = C + \frac{Si}{30} + \frac{Mn+Cu}{20} + \frac{Cr+Mo+V}{10} + \frac{Ni}{40} + \frac{Nb}{50} + \frac{Ti}{30} + \frac{B}{1000}$$
  • Interpretação (qualitativa): O menor níquel no 201 reduz a estabilidade da austenita em relação ao 304, o que pode influenciar o modo de solidificação, suscetibilidade a trincas a quente e o grau de martensita induzida por deformação na zona afetada pelo calor (ZAC) sob algumas condições. Maior Mn e N no 201 também podem alterar a seleção do metal de adição e a composição do metal de solda.
  • Orientações práticas:
  • Use metais de adição apropriados. Para metal base 304 soldado com 304, ligas 308/308L são comuns. Para 201, muitos fabricantes escolhem ligas que restauram maior teor de Ni no metal de solda para melhorar resistência à corrosão e ductilidade.
  • Pré-aquecimento geralmente não é necessário; recozimento pós-soldagem normalmente não é usado em austeníticos para aplicações comuns.
  • Para juntas críticas em resistência à corrosão, selecione a química do metal de adição para garantir que o metal de solda e ZAC atendam às necessidades de resistência à corrosão.

6. Corrosão e Proteção de Superfície

  • Comportamento inoxidável: Ambos os graus formam filme passivo rico em cromo; entretanto, a resistência geral à corrosão difere.
  • PREN (útil principalmente para avaliar resistência à corrosão por pite em ambientes com cloretos quando Mo e N estão presentes) é calculado como:
  • $$\text{PREN} = \text{Cr} + 3,3 \times \text{Mo} + 16 \times \text{N}$$
  • Nota: Para o Tipo 304 (Mo ≈ 0), o PREN é dominado por Cr e N; para o Tipo 201, menor Cr e diferente N resultam em PREN inferior ao do 304, portanto a resistência à corrosão por pite em cloretos é geralmente inferior.
  • Aspectos práticos:
  • O Tipo 304 tem resistência geral à corrosão superior em muitos ambientes aquosos e atmosféricos e é o mínimo preferido para contato com alimentos, equipamentos médicos e muitas exposições químicas.
  • O Tipo 201 tem desempenho adequado em ambientes internos e pouco corrosivos (painéis decorativos, equipamentos de cozinha em condições de baixo teor de cloretos, eletrodomésticos), mas não é recomendado para aplicações com exposição significativa a cloretos (ambientes costeiros, sais de degelo) ou onde se exige estabilidade passiva a longo prazo.
  • Proteção para aços não inoxidáveis: Se estiver comparando um aço não inoxidável, as proteções superficiais comuns incluem galvanização, pintura ou galvanoplastia — mas essas não substituem o comportamento do aço inoxidável. Para ambos os tipos 201 e 304, os acabamentos superficiais (polimento eletroquímico, tratamentos de passivação) podem afetar significativamente o desempenho contra corrosão.

7. Fabricação, Usinabilidade e Conformabilidade

  • Conformação e estampagem profunda: O tipo 304 geralmente oferece superior conformabilidade e alongamento na condição recozida devido ao maior teor de níquel e maior ductilidade. O tipo 201 pode ser conformado, mas apresenta maior retorno elástico (springback) e o metal endurece por trabalho mais rapidamente; ferramentas e parâmetros do processo devem levar isso em consideração.
  • Dobra e distorção na soldagem: A melhor ductilidade do 304 reduz o risco de trincas durante conformações severas; o 201 pode exigir maior força e controle mais rigoroso do processo.
  • Usinabilidade: Os aços inoxidáveis austeníticos são geralmente mais difíceis de usinar que os aços carbono. O tipo 201 tende a endurecer rapidamente por trabalho, o que pode reduzir a usinabilidade; ferramentas com ângulos de corte maiores, fixações rígidas e velocidades de alimentação mais baixas são comumente usadas. O 304 também é “pegajoso” e exige ferramentas adequadas, mas muitos usinadores consideram o 304 marginalmente mais fácil de usinar em tratamentos térmicos comparáveis.
  • Acabamento superficial: Ambos os graus podem ser polidos até obter acabamentos elevados. Devido à maior suscetibilidade à corrosão localizada em ambientes agressivos, o 201 pode apresentar manchas mais cedo se o acabamento superficial e a passivação não forem adequados.

8. Aplicações Típicas

Tipo 201 Tipo 304
Acabamentos decorativos, painéis arquitetônicos internos, painéis de eletrodomésticos, acabamentos externos de panelas de baixo custo, tubos leves em ambientes não agressivos Equipamentos para processamento de alimentos, pias e bancadas de cozinha, componentes para processos químicos (sem Mo), tubulações, trocadores de calor, dispositivos médicos (não implantáveis), fixadores para ambientes externos e próximos ao mar
Justificativa para escolha:
- Escolha o 201 quando restrições orçamentárias forem determinantes e o ambiente de serviço for brando (interno, baixo teor de cloretos), ou quando se priorizar maior resistência na condição entregue e acabamento superficial brilhante.
- Escolha o 304 quando for necessário desempenho superior contra corrosão, higiene, soldabilidade com amplo suporte na indústria e confiabilidade a longo prazo em ambientes variados.

9. Custo e Disponibilidade

  • Custo: O tipo 201 é tipicamente mais barato que o 304 devido ao significativamente menor teor de níquel. O níquel é o principal fator de custo nos aços inoxidáveis; substituir Ni por Mn e N reduz a sensibilidade do custo do material às variações do mercado de níquel.
  • Disponibilidade: O tipo 304 é onipresente mundialmente em chapas, placas, bobinas, tubos e barras, e geralmente é mais fácil de obter com certificação para aplicações críticas. O tipo 201 é comum regionalmente e amplamente disponível em formas de produtos commodities, mas dados certificados de laminação e algumas formas de produto podem ser menos prontamente estocados que o 304 em certos mercados.

10. Resumo e Recomendação

Tabela resumo (qualitativa):

Atributo Tipo 201 Tipo 304
Soldabilidade Boa, mas a escolha do material de adição pode precisar de ajuste Muito boa, práticas consolidadas para material de adição
Equilíbrio resistência–tenacidade Maior resistência, menor ductilidade/tenacidade Resistência balanceada com ductilidade e tenacidade superiores
Custo Menor (níquel reduzido) Maior (teor padrão de Ni)

Recomendações: - Escolha o Tipo 201 se: - O projeto for sensível a custos e a exposição for limitada a ambientes brandos, internos ou com baixo teor de cloretos. - Maior resistência na condição entregue e economia de custo forem mais importantes que a resistência máxima à corrosão. - A aparência superficial e o baixo custo em produtos de consumo forem priorizados. - Escolha o Tipo 304 se: - Houver expectativa de resistência à corrosão de longo prazo, serviço higiênico ou exposição a cloretos. - Formabilidade, soldabilidade e certificação de material estabelecida forem importantes. - A aplicação precisar atender a normas industriais comuns para contato com alimentos, farmacêuticos ou exposição externa.

Nota final: A seleção do material deve sempre ser validada considerando as condições ambientais específicas, cargas mecânicas, sequências de soldagem e conformação, além das restrições de aquisição e fornecimento do projeto. Para aplicações críticas, consulte certificados de laminação e realize testes de corrosão ou avaliações de engenharia para confirmar a adequação do 201 versus 304 para o serviço pretendido.

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